Quando eu dizia, há dois anos atrás, que vinha morar em Bari, muitos perguntavam
espantados: "- Em Bali?! Por que tão longe?", ou então: "Bari...
Bariloche?". Não bastava dizer somente Bari, tinha que dar as coordenadas
geográficas: sul da Itália, no salto da bota, às margens do mar Adriático, com
vista pra Grécia e pra Albânia, só assim ia situando um pouco as pessoas. Hoje
estou aqui, em Bari, capital da Puglia, e finalmente decidi contar parte dessa
aventura. Este blog vai ser uma espécie de colcha de retalhos, se eu tiver tempo
pretendo falar de tudo que gosto e me interesso, mas quero principalmente falar
desta terra fantástica. Bem-vindos!

sexta-feira, 2 de março de 2012

18 - LUCIO DALLA + PUGLIA



Impossível não falar de Lucio Dalla um dos maiores artistas italianos, que se considerava pugliese de coração. Lucio morreu ontem, 1º. de março, vítima de enfarte, na cidade suíça de Montreux. Ironia do destino ou não, morreu justamente na cidade que é mundialmente conhecida pelo famoso Festival de Jazz, estilo no qual iniciou sua carreira e pelo qual era apaixonado. Sua morte pegou toda a Itália de surpresa, pois o cantor estava em Montreux começando uma nova turnê que incluía shows em vários países europeus, e apenas havia participado do festival de Sanremo com a belíssima canção Nanì.  Lucio Dalla era um “pequeno notável”.  Baixinho, e fora dos padrões de beleza dos ídolos italianos dos anos 60, tinha um talento gigantesco. Tocava piano, sax, e era considerado um virtuose do clarinete, tinha formação jazzística, iniciou sua carreira em 1962, e sua produção musical passou pela música experimental, pela canção de autor, fazendo até incursões pela lírica. Fez também cinema. Suas letras poéticas, e muitas vezes falando dos desvalidos, logo ganharam o público, e Lucio passou a fazer parte do grupo de estrelas da música italiana. O primeiro grande sucesso foi Gesù Bambino, que por problemas com a censura da época, foi apresentada no Festival de Sanremo de 1971 com o nome de 4 marzo 1943, sua data de nascimento. A música teve uma versão no Brasil feita por Chico Buarque, chamada Minha História. Após inúmeros sucessos, Lucio compôs Caruso, que se tornou uma das canções mais famosas na história da música italiana.
Lucio Dalla tinha uma forte ligação com a Puglia. Sua mãe nasceu em Manfredonia, e ele, nascido em Bologna, na Emilia Romagna, passava suas férias no Gargano (o assunto dos dois posts anteriores). Foi ainda pequeno que conheceu e se encantou pelas ilhas Tremiti, que ficam em frente ao Lago de Lesina (lembram do lago?). Mais tarde comprou uma casa ali e tornou-se um defensor das ilhas participando ativamente contra a exploração petrolífera do Adriático que ameaça o arquipélago.  Era cidadão honorário tanto de Manfredonia quanto das Ilhas.
Lucio Dalla nas ilhas Tremiti
AS ILHAS TREMITI
Pertencente à província de Foggia e ao Parque Nacional do Gargano, são chamadas as pérolas do Adriático. Desde 1989 parte do seu território constitui a Reserva Natural Marinha Ilhas Tremiti.
Embora sendo o menor município da Itália em território e o segundo menos populoso, tem apenas 496 habitantes, é importante centro turístico da região gargânica pela qualidade de suas águas. O pequeno arquipélago é constituído por 6 ilhas, mas só duas são habitadas, San Nicola, onde vive a maior parte da população, e San Domino, onde se encontram as principais estruturas turísticas e é a única ilha com praias arenosas.
Pode-se chegar às ilhas com as barcas que partem de Manfredonia, Vieste, Peschici, Rodi Garganico ou Termoli.
                            Parte do Arquipélago de Tremiti (foto Regione Puglia)

Ilha San Nicola ao fundo  (foto web)
Lucio Dalla em sua casa de Tremiti  (foto Ansa)
(foto de Antonio Notariello)
(foto de Antonio Notariello)
(foto web)
A incrível transparência das águas de Tremiti (foto web)
Chega-se ao arquipélago partindo de Termoli, Rodi Garganico, Vieste, e Manfredonia.

quinta-feira, 1 de março de 2012

17 - VIAJANDO PELO GARGANO - PARTE 2

Onde foi mesmo que paramos no último post?!  Aaah! Pessoal ligado, hein? Isso mesmo, estávamos caminhando pelas ruelas do centro histórico de Vieste, aquela cidade maravilhosa do Gargano. Pois hoje continuamos o passeio ainda ali, porque depois de visitar a parte histórica, e comer, em um dos tantos restaurantes típicos, um bom orecchiette con ragù d'agnello (orecchiette -a massa da Puglia-com cozido de cordeiro), é hora de descer e conhecer a praia de Vieste que além da areia branquinha e do mar sensacional, tem uma montanha de pedra simplesmente cravada entre o mar e a areia, um verdadeiro capricho da natureza.





Terminada a visita nos dirigimos a Peschici, cidade de aproximadamente 5 mil habitantes, que fica a uns 35 km de Vieste. O centro histórico é bem menor que o de Vieste, mas não menos encantador, até porque ele termina literalmente num precipício.  É possível entrar de carro até o centro, depois de encontrar um lugar pra estacionar, caminhe muito, e leve em consideração que Peschici é mais alta que Vieste, e suas ruelas são muito mais íngrimes. O centro termina nas ruínas do castelo, como se vê na foto abaixo, a vista é realmente de tirar o fôlego.

Peschici também tem belas praias, e é um dos balneários mais concorridos no tórrido verão pugliese.



Saindo de Peschici vamos em direção a Rodi Garganico, cidadezinha de 3500 habitantes. Rodi tem duas praias, vindo de Peschici você chega pela praia de Levante, depois é preciso atravessar a cidade para poder chegar à outra praia chamada Ponente, e só assim continuar viagem.

Foto aérea de Rodi Garganico com as praias de Levante e Ponente. (foto Wikimedia Commons)


A estas alturas da viagem já estamos começando a abandonar o mar para poder sair do Gargano. A estrada agora passará em meio às plantações de tomates e oliveiras, e muitas são as cidadezinhas que se encontram no caminho: Carpino, Cagnano Varano, Sannicandro Garganico, Apricena. Essa parte baixa do Gargano tem dois lagos enormes,Varano e Lesina (é palavra proparoxítona, pronuncia-se Lésina), que estão separados do mar Adriático por uma estreita faixa de terra, e a paisagem é única. No lago de Lesina existe uma grande criação de enguias, e não é difícil imaginar qual é o prato típico local: minestra d'anguilla! (sopa de enguia). Considerada uma verdadeira iguaria, conta-se que esse prato era o preferido do Imperador Federico II (lembram dele?), no distante século XIII. 

Abaixo um mapinha que mostra os dois lagos, e assim vocês têm uma idéia de tudo o que já viajamos desde Margherita di Savoia.


É aqui, depois do lago de Varano que concluímos nosso roteiro de quase 200 km entre Margherita di Savoia onde iniciamos a viagem, e San Severo, onde pega-se novamente a superstrada 16 Bis pra retornar a Bari.

Se você puder dedicar dois dias pra conhecer o Gargano acrescente a este roteiro as cidades de Monte Sant'Angelo e San Giovanni Rotondo que citei no post Conhecendo a Puglia de Norte a Sul, sobre as quais falarei em breve.

Fiquem com mais fotos!

Peschici
Peschici

Peschici

Peschici

Peschici

Peschici

Peschici

Peschici

Peschici

Peschici

Lago de Varano, na parte inferior da foto o mar Adriático, separado do lago por aquela estreita faixa de terra.(foto web)

Lago di Lesina. Em primeiro plano a cidade de Lesina, depois o lago e o mar.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

16 - VIAJANDO PELO GARGANO – PARTE 1

Continuando a falar da região do Gargano, tema do último post, tenho algumas sugestões de roteiros para os curiosos que gostam de descobrir lugares novos. Vamos começar fazendo o roteiro de todo um dia de viagem.
Saindo de Bari, pegando a estrada Bari-Foggia (chama-se super strada 16 BIS, evite a autoestrada pra não ter que pagar pedágio), entra-se à direita depois da cidade de Barletta, na estrada que leva à Margherita di Savoia, que é um balneário  muito conhecido pelas águas termais. As suas praias não são “aquele” espetáculo comparadas as que virão depois, mas a parada ali é estratégica pra comer o melhor cornetto alla crema (croissant com creme) de toda a Itália, é sério, podem acreditar, é um espetáculo! Perguntem pela confeitaria Fiamma que fica na rua principal, no centro da cidade. Dali, seguindo sempre por estradas secundárias e sempre costeando o mar, passando ao lado de altas salinas, pois a zona é importante produtora de sal, chega-se à pequena Siponto.  Na verdade aqui vale à pena parar pra conhecer a Basílica de Santa Maria de Siponto, que fica na própria estrada, é só descer do carro e entrar nesta pequena jóia do românico-pugliese, que tem mil anos de existência. Além disso, nada melhor que poder unir praia com cultura e história. Ao lado da Basílica encontra-se uma área arqueológica com as ruínas de uma igreja paleocristã construída no final do século IV,  período em que o cristianismo era proibido no Império Romano. O lugar é aberto ao público de segunda a sábado das 9.30 às 13.00, e domingos das 10.00 às 16.00, a entrada é gratuita.
Retomando a viagem, em alguns minutos chega-se a Manfredonia,  cidade que fica no Golfo do mesmo nome. Com seus 57 mil habitantes é um centro importante pra região, por causa do seu porto, e é a última parada antes de começar a subida para visitar as cidades que estão na parte alta do Gargano, a 800 metros de altitude.  Depois de Manfredonia a estrada é cheia de curvas, túneis, precipícios e paisagens deslumbrantes. A primeira parada é Mattinata, lá de cima, por uma estrada de chão é possível alcançar a praia de Vignanotica com seus enormes paredões de pedra calcária que invadem o mar. Se o seu roteiro é de apenas um dia, lamento ser desmancha prazer, mas não vai dar tempo de visitar esta praia, lá do alto você poderá, pelo menos, tirar lindas fotos e levar como recordação!   Depois de Mattinata, percorrendo uns 50 km chega-se a Vieste. Visita obrigatória! A cidade tem um centro histórico labiríntico que fica sobre um penhasco, e no fim de cada ruela,  você vê a imensidão do mar Adriático às vezes turquesa, às vezes esmeralda. Deslumbrante! Caminha-se muito, e  esteja preparado pro sobe-e-desce. Vieste é toda feita de ladeiras e escadarias.




Bem, continuaremos este roteiro no próximo post. Curtam algumas fotos desta viagem!
(Como não estive em Vignanotica, já que fiz o roteiro de um dia, coloco as fotos que ganhei do meu amigo Tonino, professor e fotógrafo, que conhece o Gargano melhor do que ninguém!)


Mapinha com os lugares do nosso roteiro

Praia de Margherita di Savoia.  Não me perguntem o que a bandeira do Brasil faz ali.

Salinas entre Margherita di Savoia e Siponto.

Basílica de Santa Maria de Siponto.

Ruínas da igreja do séc.IV, ao lado da Basílica de Santa Maria.

Castelo Svevo de Manfredonia. (Foto web)

Vista de Manfredonia. (Foto web)


Praia de Vignanotica (Foto de Antonio Notariello)

Vignanotica (Foto de Antonio Notariello)

Vignanotica (Foto de Antonio Notariello)

Vignanotica (Foto de Antonio Notariello)

Vieste (foto web)

Vieste - Centro histórico

Vieste e suas encantadoras ruas do centro histórico

Vieste - Entenderam a mensagem? Calçados confortáveis e muita disposição!

Sacadas floridas de Vieste



quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

15 - CONHECENDO A PUGLIA DE NORTE A SUL


No norte da Puglia tem uma região fantástica que se chama Gargano. Fica na Província de Foggia, a porta de entrada da Puglia pra quem vem por via terrestre do norte da Itália ou do oeste do país, via Roma, Nápoles, ou Costa Amalfitana. O Gargano é um promontório, isto é,  um cabo elevado formado de rochas que avançam sobre o mar.  Em meio a enorme planície que é a Puglia, surge esta formação gigantesca de rocha calcária que abriga parques naturais, inúmeras cidades, povoados, santuários religiosos, lagoas, e praias fantásticas. Se você pretende conhecer o Gargano prepare-se para horas de viagem  através de estradas que serpenteiam precipícios, entram em túneis infinitos, costeiam plantações de tomates (a Puglia produz a maior parte do tomate consumido em toda a Itália), de seculares oliveiras (dizem que o melhor azeite de oliva extravirgem do mundo, com acidez quase zero, é produzido no Gargano), que passam dentro de bosques, e que pouco a pouco vão fazendo a gente descobrir praias quase secretas escondidas entre rochas. Os maiores centros urbanos do Gargano são Monte Sant’Angelo, San Giovanni Rotondo, Vieste e Peschici. Os dois primeiros ficam nas alturas, e longe do mar, no entanto, de Monte Sant’Angelo tem-se uma vista espetacular do Golfo da Manfredônia, cidade portuária muito importante para a região gargânica. Já San Giovanni Rotondo, lugar de peregrinação, é a cidade onde viveu, morreu e está enterrado Padre Pio, ou San Pio di Pietralcina, um dos santos da igreja católica mais adorados na Itália.  Monte Sant’Angelo, perto de San Giovanni Rotondo, também é um centro que atrai peregrinos, ali encontra-se o Santuário de São Miguel Arcanjo, que dá nome a cidade. Os outros dois centros, Vieste e Peschici,  são cidades frequentadíssimas no verão pelas excelentes praias, ficam sobre dois penhascos e ambas têm centros históricos belíssimos.  Além destes quatro lugares considerados símbolos do Gargano, pode-se visitar outras belas cidades em todo um dia de viagem pela região, quem gosta de caminhadas pode conhecer a Floresta Umbra, que apesar do nome, é na verdade um grande bosque de pinheiros e outras espécies.  Visitei o Gargano em julho do ano passado, e é realmente um espetáculo. Fiquem com algumas fotos que tirei por lá. No próximo post vou sugerir alguns roteiros por esta região.
Praias do Gargano


Vieste

Peschici


O famoso pão de Monte Sant'Angelo


Praias do Gargano


Monte Sant'Angelo

Cripta de Padre Pio em San Giovanni Rotondo

As estranhas formações rochosas da região